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Efeito do método Pilates em fatores de risco para doenças cardiometabólicas: uma revisão sistemática

11/05/2016 11:02:00
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INTRODUÇÃO Atualmente, a discussão sobre o desencadeamento de doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, tem se concentrado em torno de fatores genéticos, metabólicos e estilo de vida, principalmente relacionadas à atividade física e dieta. Tal discussão e estudos científicos são de grande relevância em nível de saúde pública, uma vez que as doenças cardiovasculares (DCV) representam a principal causa de morbimortalidade em países desenvolvidos e em desenvolvimento, como é o caso do Brasil [1]. Neste contexto, são considerados como principais fatores de risco cardiovascular: 1) história familiar de doença arterial coronariana prematura (familiar de primeiro grau do sexo masculino que apresentou a doença com menos 55 anos e do sexo feminino com menos de 65 anos); 2) ser homem com idade acima de 45 anos e mulher com idade acima de 55 anos; 3) tabagismo; 4) hipercolesterolemia: lipoproteína de baixa densidade ligada ao colesterol (LDL-c) elevada; 5) hipertensão arterial sistêmica (HAS): pressão diastólica acima de 90 mm Hg e sistólica acima de 140 mm Hg; 6) diabetes mellitus (DM) tipo 2; 7) obesidade: índice de massa corporal (IMC) de 30 kg/m2 ou mais; 8) gordura abdominal (medida pela circunferência da cintura, onde os pontos de corte adotados são: mulheres >80,0 cm e homens >94,0 cm); 9) sedentarismo; 10) dieta pobre em frutas e vegetais; 11) estresse psicossocial. Adicionalmente, os fatores de risco cardiometabólicos são aqueles implicados no desenvolvimento de DM tipo 2 e DCV, devido a um conjunto de fatores de risco modificáveis [1-3]. Nesse sentido, diversos estudos têm demonstrado que o sedentarismo é um dos principais fatores de risco que podem contribuir para o desencadeamento de distúrbios metabólicos e DCV [4-7]. Por outro lado, é preciso destacar que a prática de exercício físico regular, como por exemplo, a aplicação do método Pilates, tem potencial de prevenir fatores de risco cardiometabólicos, uma vez que concilia exercício postural e de concentração, com foco na musculatura das costas e abdominal [1,8,9]. Os estudos têm mostrado que o Pilates é eficaz em reduzir a adiposidade intra-abdominal, que é metabolicamente ativa, produzindo inflamação crônica de baixo grau, aumento do fluxo de ácidos graxos livres e aumento nas taxas de LDL-c no plasma [10,11]. Isso pode acarretar o comprometimento da função de órgãos como fígado, pâncreas e músculo esquelético, devido ao acúmulo ectópico de lipídeos e à formação de metabólitos tóxicos, causando danos intracelulares e alterações nas enzimas mitocondriais, levando ao acúmulo intracelular de glicose. Esse acúmulo de glicose pode desencadear resistência à insulina, a qual está associada à disfunção endotelial e ao subsequente desencadeamento de DCV [12-14]. O método Pilates foi fundado por Joseph Pilates durante a década de 1920. Sua ênfase está sobre o controle do corpo, posição, movimento e mente, fazendo com que se denominasse originalmente como Arte do Controle ou “Contrologia” [15]. Os princípios básicos do método Pilates incluem centralização, concentração, controle, precisão, fluidez e respira- ção [16]. Os exercícios podem ser executados no solo sem uso de aparelhos (Mat Pilates), ou envolver o uso de equipamentos especializados que oferecem resistência ajustável. O método Pilates pode ser indicado para qualquer indivíduo, de diferentes faixas etárias, sendo mais frequentemente prescrito para pessoas com dor lombar crônica, para correção postural e melhora do equilíbrio dinâmico, da flexibilidade, da força e da resistência, para o aumento da massa muscular e redução de massa gorda, para reabilitação e para a melhoria da qualidade de vida [17,18]. Atualmente, o Pilates vem se consolidando como um exercício físico com elevado número de adeptos em diversos países. Nos Estados Unidos, por exemplo, é uma das principais práticas físicas, com aproximadamente 10,5 milhões de praticantes, não apenas para correção postural, como também para prevenção dos fatores de risco para DCV e doenças metabólicas [9-11,19]. Junges et al. [9] verificaram a eficácia de um programa de Pilates por um período de 30 semanas (frequência de duas vezes por semana) na redução da porcentagem de gordura corporal, da relação cintura/quadril e do grau de cifose em mulheres pós-menopáusicas. Os resultados desse e de outros estudos sugerem que o gasto calórico e a correção postural promovidas pelo Pilates podem resultar na melhoria da distribuição do tecido adiposo, através da maior mobilização da gordura depositada na região abdominal [9,15,16,20]. Levando em conta essa ampliação das indicações do método, o presente estudo teve como propósito realizar uma revisão sistemática da literatura sobre o efeito do Pilates em fatores de risco para doenças cardiometabólicas. MÉTODOS Foi realizada uma busca de artigos científicos publicados no período de 2004 a 2014, por meio das bases de dados LILACS, SciELO, PubMed e Scopus. Utilizaram-se os descritores Exercícios de Pilates/Pilates Exercise, adicionando aos seguintes: sedentarismo/sedentary lifestyle, obesidade/obesity, índice de massa corporal/body mass index, composição corporal/body composition, pressão arterial/blood pressure, diabetes mellitus/diabetes mellitus e dislipidemia/dyslipidemia. A revisão sistemática tem o início com a definição adequada da pergunta norteadora, existindo quatro componentes para a formulação de uma questão pesquisa, através da sigla PICO, em que P=participante, I = intervenção, C= controle e O = desfecho [21]. A revisão sistemática do presente estudo foi norteada pela seguinte questão de pesquisa: Qual é o efeito do método Pilates em fatores de risco para as doenças cardiometabólicas? Tendo como base esta informação, elegemos os seguintes critérios de inclusão: P=população do estudo portadora de pelo menos algum fator de risco cardiometabólico como sedentarismo, sobrepeso/ obesidade, diabetes mellitus, dislipidemia e hipertensão arterial; I = intervenção através do método Pilates; C = grupo que não recebeu intervenção; O=efeito significativo nas variáveis antropométricas (composição corporal, índice de massa corporal circunferência de cintura, relação cintura e quadril), glicemia de jejum, perfil lipídico e pressão arterial. Além disso, os artigos selecionados deveriam ser artigos originais, disponíveis na íntegra e redigidos nos idiomas inglês ou português. RESULTADOS DA SELEÇÃO A busca dos descritores na literatura resultou em um total de 93 artigos. Destes, 86 foram excluídos: 32 eram duplicatas, seis eram estudos de revisão, dois eram estudos com delineamento observacional, 35 estudos focavam outro tipo de desfecho que não fosse doença cardiometabólica e 11 estudavam outro tipo de exercício físico que não o Pilates, sendo selecionados somente sete artigos (Figura 1). A presente revisão sistemática foi conduzida pela questão norteadora baseada na eficácia do método Pilates em fatores de risco para doenças cardiometabólicos. A literatura é escassa quanto a esse tema e a maioria dos estudos com Pilates investiga principalmente os seus efeitos na composição corporal e porcentagem Figura 1. Etapas da revisão sistemática: busca, seleção e inclusão de estudos sobre o efeito do método Pilates em fatores de risco cardiometabólicos.
Tabela 1. Principais achados de estudos que investigaram o efeito do método Pilates em fatores de risco cardiometabólicos no período de 2004 a 2014. Todos os programas de intervenção utilizaram o Mat Pilates. Autores Ano País População Amostra Idade dos participantes Duração da sessão Frequência semanal Duração da intervenção Variáveis cardiometabólicas avaliadas Principais resultados Fourie M et al. [26] 2013 África do Sul 50 idosas sedentárias 25 idosas randomizadas para o GI Média de idade: GC=65,32±5,01 GI=66,12±4,77 60 minutos 3 dias por semana 8 semanas Gordura corporal IMC O GI apresentou diminuição estatisticamente significativa da porcentagem de gordura corporal (p=0,0016) Tunar M et al. [27] 2012 Turquia 31 pacientes sedentários portadores de diabetes tipo 1 com idades entre 12-17 anos. 14 pessoas foram submetidas a sessões de Pilates Média de idade: GI=14,2±2,2 GC=14,3±1,8 45 minutos 3 dias por semana 12 semanas Hemoglobina glicada Dose diária de insulina subcutânea HDL-c Triglicerídeos Colesterol total LDL-c HDL-c Não foram verificadas diferenças estatisticamente significativas na hemoglobina glicada e nas doses diárias de insulina subcutânea entre os grupos Fourie M et al. [28] 2013 África do Sul 50 idosas sedentárias foram divididas em 2 grupos: 25 no GI e 25 no GC. Média de idade: GC=65,32±5,01 GI=66,12±4,77 60 minutos 3 dias por semana 8 semanas Pressão arterial Glicemia HDL-c Triglicerídeos Colesterol total IMC As idosas do GI tiveram uma diminuição estatisticamente significativa da pressão arterial sistólica (p=0,040) e aumento níveis de glicose (p<0,001) Ramezankhany A et al. [29] 2012 Irã 46 mulheres sedentárias foram divididas em 4 grupos: 1) Pilates 2) Exercícios aeróbicos 3) Dieta hipocalórica 4) Controle (GC) Média de idade: GC=36,4±2,99 Dieta=36,8±2,91 Exercícios aeróbicos=35,16±2,94 Pilates=37,16±2,88 45 minutos 3 dias por semana 16 semanas Relação Cintura e quadril, HDL-c LDL-c Triglicerídeos Colesterol total IMC Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas em relação cintura-quadril (RCQ) dentro de todos os grupos experimentais (P=0,001) e no IMC do grupo dos exercícios aeróbicos e do Pilates (P<0,05) Cakmakçi O. [30] 2011 Turquia 58 mulheres obesas e sedentárias, 34 no GI e 27 no GC. Média de idade: GI=36,15±9,59 GC=38,96±10,02 60 minutos 4 dias por semana 8 semanas IMC Relação cintura/quadril Circunferência da cintura Porcentagem de gordura corporal Massa gorda e magra O GI apresentou diferença estatisticamente significativa na relação cintura quadril (P<0,001) e nos percentuais de gordura corporal (P<0,001) e massa gorda (P<0,001) Cakmakçi O. [31] 2012 Turquia 36 mulheres com sobrepeso e sedentárias foram randomizadas. 20 para grupo de intervenção e 16 grupo controle Média de idade: GI=28,35±10,18 GC=28,19±7,44 60 minutos 3 dias por semana 10 semanas IMC Relação cintura-quadril Circunferência da cintura Composição corporal, Massa gorda e magra Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas em massa gorda e magra (p<0,001), relação cintura quadril e IMC (p<0,001) Martins-Meneses DT et al. [32] 2014 Brasil 44 mulheres hipertensas tratadas com medicação GI=51,8±4,3 GC=49,0±7,5 60 minutos 2 dias por semana 16 semanas Pressão arterial Frequência cardíaca IMC Relação cintura quadril Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nas médias da pressão arterial diastólica e sistólica, na circunferência da cintura e na relação cintura quadril (p<0,05) GI: grupo intervenção com Pilates; GC: grupo controle; IMC: índice de massa corporal; HDL-c: lipoproteína de alta densidade ligada ao colesterol; LDL-c: lipoproteína de baixa densidade ligada ao colesterol. Sci Med. 2015;25(1):ID19839 5/8 Artigo de Revisão Junges S et al. – Efeito do método Pilates

Dos sete estudos analisados, três (42,86%) investigaram o efeito do Pilates em fatores de risco cardiometabólicos clássicos: triglicerídeos, glicose e lipoproteína de alta densidade ligada ao colesterol (HDL-c), sendo que um estudo verificou aumento significativo dos níveis de glicose, tanto no grupo Pilates (P<0,0001) quanto controle (P=0,001) e outro mostrou aumento dos níveis de HDL-c somente no grupo controle (P=0,046) [27-29]. Já o estudo de Ramezankhany et al., não demonstrou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos com relação a esses fatores (P>0,05) [29]. Porém, desses três estudos, dois deles também avaliaram concomitantemente outros parâmetros, como pressão arterial sistêmica, IMC e relação cintura/quadril, verificando reduções estatisticamente significativas no grupo que realizou Pilates [28,29]. Dos sete estudos incluídos, seis deles (85,71%) mostraram reduções estatisticamente significativas entre os grupos intervenção com Pilates e controle, em algum dos seguintes parâmetros: níveis de pressão arterial sistólica e diastólica [28,32] IMC [29], porcentagem de gordura corporal [26, 30], relação cintura/ quadril [29,31] e massa gorda [30, 31] (Tabela 1). Do total de artigos analisados, a maioria encontrou efeitos positivos do Pilates na composição corporal, no IMC e na relação cintura/quadril, como pode ser observado nos estudos realizados por Cakmakçi [30, 31], Fourieet al. [26] e Ramezankhanyet al. [29]. Esses estudos indicaram que o Pilates teve efeito benéfico sobre as variáveis antropométricas e composição corporal quando praticado durante 45 a 60 minutos por dia, de duas a quatro vezes por semana, em um período compreendido entre oito e 10 semanas. O Pilates, apesar de não ser considerado aeróbico por completo, produz um elevado gasto energético, com consequente alteração no metabolismo celular. Dessa forma, exerce efeitos positivos no desempenho físico e na composição corporal [30,31,33].É importante ressaltar que exercícios físicos como o Pilates desencadeiam uma série de alterações fisiológicas, principalmente na regulação da glicemia e na deposição de gordura abdominal, refletindo-se no aumento da sensibilidade à insulina, que atua no controle glicêmico, síntese proteica e na regulação da estocagem de gordura [34,35]. Entretanto, a busca na literatura resultou em três estudos [27-29] que não observaram efeitos positivos do Pilates nos níveis de glicose, dos triglicerídeos e da HDL-c, que em níveis alterados e em conjunto caracterizam a síndrome metabólica. Um desses estudos [27] analisou o efeito do Pilates em um grupo de diabéticos, mas não encontrou diferença estatística entre as médias de hemoglobina glicada e nas doses diárias de insulina subcutânea, entre os grupos intervenção e controle. Uma das hipóteses aventadas pelos autores do estudo para tal resultado seria que os participantes aumentaram a ingestão de carboidratos antes da atividade, devido ao risco de hipoglicemia durante a realização do exercício. Contudo, a ingestão calórica dos participantes da pesquisa não foi avaliada [27]. As dislipidemias são outros fatores de risco para doenças cardiometabólicas, que associados ao sedentarismo aumentam ainda mais o risco cardiovascular [36]. Na presente revisão, os estudos que analisaram o perfil lipídico não encontraram diferenças relacionadas às médias de triglicerídeos, HDL-c, LDL-c e colesterol total [27-29] nos grupos que realizaram o Pilates. Umas das justificativas referidas pelos autores para tal resultado, é que apenas os exercícios aeróbicos podem exercer, de fato, alguma influência nas dislipidemias. Em uma metanálise realizada para verificar o impacto de ensaios clínicos randomizados que utilizaram exercícios físicos para a perda de peso em pessoas com sobrepeso/obesidade, demonstrou-se que a atividade aeróbica, mesmo quando não reduzindo o peso, promove diminuição dos triglicerídeos totais, pressão arterial e glicemia de jejum [37]. Entretanto, o método Pilates não pode ser considerado uma modalidade de exercício aeróbico, caracterizando-se como um exercício de força e resistência com capacidade de reduzir a adiposidade abdominal e visceral, que são reservas ricas em triglicerídeos [30]. Nesse sentido, o Pilates pode contribuir para o melhor metabolismo dos carboidratos e da oxidação das gorduras, reduzindo os níveis de lipídeos circulantes e intramusculares, melhorando a sensibilidade à insulina e prevenindo o desenvolvimento do diabete mellitus tipo 2 e da hipertensão. Outra possível explicação para o achado de ausência de efeito do Pilates no perfil lipídico seria o uso das estatistinas pelos indivíduos investigados. Isto porque estudos com outra modalidade de exercicio físico, mesmo com baixa intensidade, porém com maior frequência, demonstraram um impacto benéfico no perfil lipídico, inclusive de idosos [38]. Por outro lado, dois estudos incluídos nesta revisão encontraram efeitos benéficos do Pilates na pressão arterial sistêmica. Fourie et al. [28] avaliaram o efeito do treinamento do Pilates na pressão arterial de idosas e verificaram que o grupo de intervenção apresentou uma redução significativa nas médias da pressão arterial sistólica durante o treinamento. Martins-Meneses et al. [32] também encontraram resultados semelhantes nos níveis tanto da pressão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Pilates está se consolidando como uma modalidade de exercício físico eficaz na redução de porcentagem de gordura corporal, da massa gorda, da relação cintura/ quadril e da pressão arterial em indivíduos de diferentes faixas etárias. Aproximadamente 86% dos estudos incluídos na presente revisão mostraram a eficácia do Pilates na redução de algum desses parâmetros corporais e fisiológicos. Esses benefícios, principalmente a redução da obesidade abdominal, relação cintura/ quadril e pressão arterial, têm um impacto clinicamente relevante na morbimortalidade por DCV e acidente vascular cerebral, bem como no aumento da capacidade funcional e na qualidade de vida. Entretanto, apenas três estudos foram encontrados investigando o efeito do Pilates em relação de fatores de risco clássicos para as doenças cardiometabólicas, como a glicemia, os triglicerídeos e a HDL-c, não sendo observados efeitos do Pilates nesses fatores. Considera-se, portanto, que são necessários mais estudos de intervenção com o Pilates (e não somente o com o Mat Pilates), com amostras bem definidas e talvez com duração de intervenção maior para que se possa confirmar a eficácia do método na remissão dos fatores de risco cardiometabólicos, com vistas à prevenção das doenças associadas.

 

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